Hoje, 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. Para marcar essa data, nossa equipe teve a oportunidade de conversar com a Psicóloga Beatriz Reis, especialista em Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo. Ela nos compartilhou seu conhecimento para desmistificar e explicar o que é o autismo, ajudando a promover uma maior conscientização e compreensão sobre essa condição.
“Muitas pessoas ainda associam o autismo a estereótipos equivocados, o que pode dificultar o diagnóstico, o acesso a intervenções adequadas e, principalmente, a inclusão”.
“Quando disseminamos informações corretas, ajudamos famílias, educadores e profissionais da saúde a compreender melhor as necessidades e potencialidades das pessoas autistas. Além disso, essa data reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso a serviços especializados, garantindo que crianças autistas recebam o suporte necessário para seu desenvolvimento. Conscientizar é dar voz às pessoas autistas e trabalhar para uma sociedade mais inclusiva” (Beatriz Reis, Psicóloga).
Conforme Beatriz Reis , o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a maneira como a pessoa percebe o mundo, processa informações e interage socialmente. Não é uma doença e, portanto, não tem cura – porque não há nada a ser "consertado". Trata-se de uma diferença na forma como o cérebro funciona.
Beatriz acrescenta que cada pessoa autista é única. Algumas podem ter dificuldades na comunicação verbal, enquanto outras falam fluentemente, mas enfrentam desafios na interpretação de expressões faciais e normas sociais. Há quem tenha hipersensibilidade a sons, luzes e texturas ou prefira rotinas rígidas. Muitas desenvolvem interesses profundos e específicos, demonstrando grande conhecimento em determinados temas.
Durante a entrevista, a Psicóloga explica quais são as causas do autismo e como ele é diagnosticado:
O autismo tem uma origem multifatorial, ou seja, não existe uma única causa específica. Fatores genéticos desempenham um papel fundamental, podendo ser herdados ou resultar de mutações espontâneas. Além disso, há estudos que investigam possíveis influências ambientais no desenvolvimento do TEA, mas ainda sem evidências conclusivas.
O diagnóstico do autismo é clínico, feito com base em critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). O processo deve ser conduzido por profissionais especializados, como psicólogos, neuropsicólogos, psiquiatras, neurologistas e fonoaudiólogos, que avaliam aspectos da comunicação, interação social e comportamentos repetitivos.
O diagnóstico não é baseado em um único exame ou teste, mas sim em uma avaliação detalhada, que pode incluir entrevistas com os responsáveis, observação direta da criança e uso de instrumentos específicos. Quanto mais cedo os sinais forem reconhecidos, melhor o suporte que a criança pode receber.
Para facilitar o entendimento sobre o assunto, nossa equipe esteve fazendo alguns questionamentos mais específicos sobre o Autismo, para que o público do nosso site compreenda melhor.
Quais são os principais sinais do autismo?
O autismo não se manifesta de forma única em todas as pessoas, mas alguns sinais mais comuns incluem:
Dificuldades na comunicação e interação social: atraso na fala ou dificuldades na conversação, pouca resposta ao próprio nome, dificuldade em compreender expressões faciais e gestos, menor interesse em interações sociais.
Comportamentos repetitivos e interesses restritos: movimentos repetitivos (como balançar as mãos), necessidade de rotina rígida, hiperfoco em temas específicos e repetição constante de frases.
Hipersensibilidade sensorial: reações intensas a estímulos como sons altos, luzes brilhantes, determinadas texturas de roupas ou cheiros fortes.
Beatriz Reis comenta que cada criança autista tem um perfil único, e é fundamental que o diagnóstico seja realizado por um profissional capacitado.
Como os pais podem identificar sinais de autismo em casa?
Os primeiros sinais do autismo podem aparecer nos primeiros anos de vida, e os pais são fundamentais para percebê-los. Alguns comportamentos que podem chamar atenção incluem:
* Pouca ou nenhuma resposta ao próprio nome, mesmo quando a audição está normal.
* Dificuldade em manter contato visual ou parecer não se interessar por interações sociais.
* Atraso na fala ou dificuldade em usar a linguagem para se comunicar.
* Preferência por brincar sozinho e dificuldade em imitar ou compartilhar interesses.
* Movimentos repetitivos, como balançar as mãos, alinhar objetos ou girar brinquedos de maneira incomum.
* Sensibilidade exagerada a sons, luzes, texturas ou cheiros.
Se os pais notarem um ou mais desses sinais, o ideal é procurar um profissional especializado, como psicólogo, neuropsicólogo, fonoaudiólogo, dentre outros, para uma avaliação detalhada. O diagnóstico precoce permite um acompanhamento adequado, o que pode fazer toda a diferença no desenvolvimento da criança.
Qual a importância do diagnóstico precoce e das intervenções na infância?
O diagnóstico precoce do autismo é essencial porque permite iniciar as intervenções o quanto antes. Quanto mais cedo a criança recebe suporte adequado, maiores são as chances de desenvolver habilidades importantes para sua autonomia e qualidade de vida.
As intervenções podem incluir acompanhamento com profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicopedagogos especializados, sempre respeitando as necessidades individuais da criança. A ideia não é forçá-la a se encaixar em um padrão, mas sim criar estratégias que favoreçam sua comunicação, interação e bem-estar.
Outro ponto essencial é a terapia pelo brincar. Muitas famílias não entendem que o brincar não é apenas uma distração, mas sim uma ferramenta fundamental no desenvolvimento da criança autista. Durante as brincadeiras, a criança aprende a se comunicar, a lidar com regras, a reconhecer emoções e até a desenvolver coordenação motora e planejamento. Ou seja, brincar também é terapia e, quando bem direcionado, pode ser um dos métodos mais eficazes para estimular a criança de forma natural e prazerosa.
Como apoiar emocionalmente as famílias de crianças autistas?
Receber o diagnóstico de autismo pode ser um momento desafiador para muitas famílias, especialmente por causa da falta de informação e do medo do futuro. O suporte emocional é fundamental para que pais e cuidadores consigam lidar com as demandas do dia a dia sem se sentirem sobrecarregados. Algumas formas de apoio incluem:
* Acesso à informação de qualidade. Quando as famílias entendem o autismo e sabem quais são as melhores estratégias para auxiliar a criança, tudo se torna mais leve.
* Redes de apoio. Conversar com outras famílias que vivem experiências semelhantes pode ser muito acolhedor. Grupos de apoio e associações podem ser uma ótima alternativa.
* Participação nas terapias. Quando os pais entendem o papel da terapia e se envolvem no processo, conseguem aplicar estratégias no dia a dia, fortalecendo o vínculo com a criança.
* Autocuidado. Cuidar de uma criança autista pode ser desafiador, e os pais também precisam de momentos para si mesmos. Buscar apoio psicológico e dividir responsabilidades é essencial.
Uma família informada e acolhida é capaz de proporcionar um ambiente mais seguro e estimulante para a criança autista. O suporte emocional é tão importante quanto as intervenções terapêuticas!
Como as famílias podem estimular o desenvolvimento da criança autista no dia a dia?
O desenvolvimento da criança autista não acontece apenas nas terapias, o ambiente familiar tem um papel fundamental nesse processo. Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença no aprendizado e na interação da criança. Aqui estão algumas estratégias práticas para ajudar no dia a dia:
- Aposte no brincar como ferramenta de aprendizado
Muitas crianças autistas aprendem melhor por meio do brincar, mas isso nem sempre significa brincar "como as outras crianças". Algumas podem preferir alinhar objetos, girar brinquedos ou repetir ações. Em vez de tentar mudar isso, aproveite esse interesse para interagir com ela. Por exemplo, se a criança gosta de carros, use esse tema para estimular a fala, ensinar turnos (esperar a vez) e incentivar o contato visual.
- Torne a rotina previsível
Crianças autistas costumam lidar melhor com um dia a dia estruturado. Ter horários para as atividades, como refeições, banhos e brincadeiras, ajuda a dar segurança e previsibilidade. Se houver mudanças na rotina, avise com antecedência e, se possível, use imagens ou histórias para prepará-la.
- Use a comunicação de forma clara e objetiva
Muitas crianças autistas têm dificuldade em interpretar mensagens abstratas ou indiretas. Em vez de dizer "se arrume rápido", experimente "vamos colocar o tênis agora". Se a criança ainda não fala, explore outras formas de comunicação, como gestos, figuras e alternativas como o PECS (sistema de comunicação por troca de figuras).
- Respeite os tempos e os interesses da criança
Cada criança autista tem um ritmo próprio para aprender e se expressar. Em vez de tentar encaixá-la em um padrão, observe o que funciona melhor para ela. Se ela demonstra interesse por dinossauros, cores ou músicas específicas, use esses temas para criar momentos de aprendizado e conexão.
- Trabalhe habilidades sociais no dia a dia
Não é preciso esperar uma sessão de terapia para estimular habilidades sociais. Pequenos momentos, como ensinar a criança a dizer "oi" ao chegar em um ambiente ou mostrar como brincar junto com um irmão, ajudam a construir essas interações de forma natural.
- Esteja atento ao que pode causar sobrecarga sensorial
Barulhos altos, texturas de roupas, cheiros fortes – muitos desses estímulos podem ser difíceis para uma criança autista. Observar esses sinais e adaptar o ambiente pode evitar crises e tornar o dia a dia mais tranquilo.
- Valorize cada pequena conquista
O desenvolvimento da criança autista não acontece no mesmo ritmo de outras crianças, mas cada passo importa. Se antes ela não olhava quando chamavam seu nome e agora olha de vez em quando, isso já é um avanço! Reforce e comemore essas pequenas conquistas para motivá-la.
- Cuide também de você
A rotina pode ser desafiadora, e muitas famílias acabam se sentindo sobrecarregadas. Procurar redes de apoio, grupos de pais e profissionais que orientem nesse processo faz toda a diferença. Quando os cuidadores estão bem, conseguem ajudar a criança com mais paciência e eficiência.
Por: Déssyca Barbosa (Jornalista/ TV Gallo)